sexta-feira, março 06, 2009



VIDAVIVIDA

O menino vê


Antunes Ferreira
P
assam os dois, de braço dado, cada um com a sua bengala branca, retráctil. São um casal de cegos. Hoje usa dizer-se invisuais, termo que se afirma politicamente correcto. Para mim, politica e socialmente errado. Disse-me um dia, o Presidente da ACAPO que a denominação era Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal. Mais nada.

Costumo vê-los quando vou à barbearia do Sr. António, que fez tropa em Angola, tal como eu, e mais ou menos pela mesma altura. Temos conversado muito sobre a guerra colonial, estúpida e criminosa como todas elas. Adiante. Sentado na cadeira plástica (antes eram metálicas) a fingir que é cromada, enquanto me rasoira a cabeça e apara a pêra, lembramos os camuflados, as G3, os burros do mato, emboscadas, golpes de mão, eu sei lá que mais. Em troca de tais convívios ofereci-lhe no Natal o meu «Morte na Picada». Adorou e levou uns tantos amigos a comprar.

Volto ao casal de cegos. Explica-me o Sr. Martins da loja de electricidades – ainda há, ainda há, interruptores, fichas machas, fichas fêmeas, bornes largos, bornes finos, caixas de derivação, campainhas, cabos eléctricos anilhas de aperto, cola para pegar os cabos nas paredes, não são precisos pregos, furos, abraçadeiras – que são um casal feliz, ele cego de nascença, ela cegou quando tinha dez anos.

São verdadeiros mestres na arte arriscadíssima de atravessar as ruas. Junto aos semáforos, pois claro, o sinal sonoro ajuda, as zebras também ajudam, há cidadãos que igualmente ajudam. Chamo a isso solidariedade ou, ainda que nada tenha a ver com a religião, amor ao próximo.

Hoje, porém, estam mais alegres e mais cuidadosos. Entre os dois levam de mãos dadas um puto dos seus seis, sete anos. Solícito, o Sr. António, solícito o Sr. Martins: é o filho deles, o Márito, que foram buscar à escola, há por lá mais uma confusão qualquer com os professores, greves, manifestações, exigências.

Para este casal cego isso é a felicidade. Leio-lhes na cara, nos olhos sem pupilas, no sorriso espalhado pelas faces essa felicidade de terem o catraio com eles. E atravessam com mais cuidado. Não querem que suceda qualquer coisa má ao menino deles. Que vê.

(Também publicado em A Minha Travessa do Ferreira e Splish-Splash)

1 comentário:

Idaldina Martins Dias disse...

Penso que os cegos vêem bem melhor que muito boa (ou má?) gente que tem os orgãos da visão completamente sãos.
Os cegos veêm com os olhos da alma. Para este casal, o filho não é só o seu rebento muito querido, mas também os olhos com que olham o mundo que os rodeia. É para eles , concerteza, a luz dos seus olhos.
Idaldina