quarta-feira, março 11, 2009


LINHAS TORTAS

O Senhor do Bonfim

Antunes Ferreira
S
enhor do Bonfim é bom nome para restaurante. Por isso, entrei. Um empregado, atenciosamente, indicou-me uma mesa, toalha vermelho escuro, quase grená, guardanapo azul carregado. Pratos muito simples, lineares, sobre o quadrado, arredondado. Castanhos e vítreos. Talheres também modernos, bom design, baços. Conjunto excelente. Coisa fina. Começava bem, o caso.

Cavalheiro, aqui tem o cardápio. Gajo brasileiro, pois claro. Hoje, em Portugal, pode dizer-se que mais de metade dos empregados de mesa são garçons. Ou seja, primos afastados pelo oceano, mas chegados. Aqui. Enquanto folheio o menu, meto fala com o rapaz. Então donde é? Do Brasil. Isso já eu sei. Pela maneira de falar… Pois, se o Senhor quer saber, eu lhe digo: do Paraná, Curitiba, mais precisamente de Campo Largo. Onde se faz vinho, suco de uva e freeze. E cai neve. E eu: e as cataratas de Iguaçu? Ele, afivelado um sorriso sacana: continuam lá…não emigraram. Malandro. Bom.

Dentistas e, sobretudo, futebolistas completam o time. Diz quem sabe que entre legais e clandestinos há mais de 150 mil por estas bandas. É a vingança sobre o Cabral, na galhofa… Uma boa parte trabalha, outros encostam às boxes, há de tudo, bom e mau. Até assaltantes de bancos. Estes, felizmente em minoria. Actores dos dramas da imigração de fala portuguesa, juntamente com cabo-verdianos, angolanos, guinéus, moçambicanos, sei lá que mais.

Muitos vivem em favelas a la portuga. Bairros clandestinos lhes chamam por cá. Ou de lata. No negrume dos guetos lembram-se que vieram iludidos por uma vida melhor. Perderam o pandeiro e o reco-reco, trocaram-nos pela guitarra. É o fado, triste fado, de quem nasce desgraçado, melhor fado não terá; pouca sorte, desde a vida até à morte…, cantava a Amália. Samba, nem de uma nota só.

Sou engenheiro civil, já estive diversas vezes no imenso País verde e amarelo, umas em serviço, outras em turismo puro. Adoro viajar, principalmente no País Irmão, como dizemos. Mas em Curitiba nunca estive. Rio, São Paulo, Santos, Porto Alegre, Belo Horizonte, Santa Catarrrina, Manaus, até em Itapecerica da Serra, vejam lá. Pertinho de gigante paulista, local de clube de fins-de-semana, churrascos e chope.

É o que lhe digo. A ementa, esquecida na mesa, não se mete na conversa. Compreendeu que a estória fia mais fino e sabe de certeza feita que a sua hora chegará, então terá a sua oportunidade. O Senhor quer um aperitivo? Ia uma caipirinha. E refiro a Anísio Santiago, a Havana. O Senhor conhece, já vi. É uma das melhores. Mas, me perdoe, mas não tem cachaça. Homessa, não há aguardente de cana? Tem, mas de Cabo Verde.

Não é a mesma coisa, definitivamente. É mais pró grogue de noss’terra. Mas, mesmo assim, arrisco. E encomendo uma caipirinha caprichada. O rapaz abre-se num sorriso, e repete o Senhor conhece, já foi no Brasil, vou fazer o meu melhor. Ao lado está outro, camisa branca, calça negra, como este, impecável. Oi, Sérgio, traz pró Senhor uns cajuzinhos torradinhos, uma delícia. Estou com a minha gente.

Este segundo chama-se Leovigildo, natural de Ribeirão das Neves. Com que então, mineiro? Pois não, Senhor. E mais um “o Senhor conhece”? Explico que tenho Amigos ali, foram de Angola para lá depois da independência da antiga colónia africana. Mas - provoco-o - diga-me lá, mineiro é político, não é empregado de mesa… Sérgio que volta com a caipirinha em bandeja lustrosa, pires com cajus tostadinhos, alarga a cepa arranhada, esse cara é um mineiro fajuto…

Caímos os três na risota, há só mais cinco fregueses, dois casais e um sujeito lingrinhas, como o da Casa da Mariquinhas, que comem sossegada, pacificamente, isto costuma estar mais composto, mas, o Senhor sabe, a crise anda por aí, neste caso dá tempo para conversar. Desfio saudades do Brasil – e das mulatinhas reboludas. E que mais isto e que mais aquilo, e as piranhas secas e envernizadas, de pisa-papéis, e o Sambódromo, e o Perímetro do ABC e os bicheiros. E o Pai de Santo. E Iemanjá.

Num instante estou outra vez no Maracanã, um Fla-Flu dos velhos tempos, o escrete na Suécia 1958, eu estive lá, com o beneplácito do Vicente Feola, o Gordo, conheci lá o Gilmar, o Didi, o Vává, o Pelé, o Zagalo, o Garrincha, o verdadeiro Mané das Pernas Tortas. E falei com a turma. Puxa, o Senhor sabe mesmo. Viro a alça para a actualidade. Sobre os que aqui estão espalhados por todo este minúsculo quadrilátero e nas ilhas, são em quantidades industriais. Logo o Leovigildo, se eu acho que o Liedson tem lugar na selecção portuguesa. Já o Pepe e o Deco lá estão, naturalizadíssimos, por que não o Levezinho? É o que eu penso e eles aplaudem.

Bom, já vai longo o intróito, já passou das marcas, a procissão está de volta, a banda calou-se, os anjinhos, cansados, no colo dos pais, alguns perderam as asas. Pergunto o que há, nem miro a ementa. Se têm feijoada à brasileira? Não há. E então uma picanha na brasa, cortada fininha. Claro, chama-se Senhor do Bonfim mas é restaurante português, não é rodízio, nem tem farofa. Sabe Senhor, a cozinheira e a ajudanta são de Blumenau, não sabem de vatapá, de acajaré, desses troços baianos, de lamber os dedos, minha Nossa, tem dias que arriscam uma moqueca, mas mal amanhada. Sabem não. Então, o patrão que é Portuga, de Moimenta da Beira, nem virado paulista…



Comi umas caras de bacalhau, com grelos e batatas, cozidos. Com azeite e vinagre de galheteiro. E um ovo – também cozido.

(Também publicado em http://aminhatravessadoferreira.blogspot.com e http://splish-splash.dlogspot.com)

3 comentários:

Marina Du Maria disse...

Bernardo

Conheço muito bem a escrita de Antunes Ferreira. Ele faz miséria com o que produz. Deve ser um dos melhores em Portugal. Sei que escreveu um livro. Será que o posso encontrar aqui no Brasil?

Beijocas

Horushu disse...

"Nem Samba de uma nota só"! Que texto excelente! Parabéns!

Bernardo Moura disse...

Marina Du Maria,
no perfil de Antunes Ferreira está o e-mail dele, mande-lhe um a perguntar.