quinta-feira, fevereiro 19, 2009






SALADA DO DIA
Um tiro no Carnaval

Antunes Ferreira
O meu neto número dois é o Rodrigo. A caminho dos 13 anos, é um puto excelente, bom aluno, bom em tudo que se mete, bom feitio, eu sei lá que mais. Chamam-me avô babado – e eu ralado: sou. Ao malandro só aponto um defeito – é do Benfica. Onde até já jogou, nas escolas para a miudagem, para o que lhe havia de dar, eu bem o tenho avisado contra os maus passos e ele responde-me que muito piores são os maus… passes. Nada feito. No melhor pano cai a nódoa e não se pode ser perfeito.

Frequenta com muito bons resultados o sétimo ano da Escola Secundária de Miraflores. Com amigos e amigas, naturalmente. O meu primogénito, o Miguel, economista, e a minha nora/filha Margarida, secretária, optaram – e a meu ver muito bem – pelo ensino oficial. As escolas públicas, no entender deles, preparam a malta para a vida, a nível muito diferente (e superior) às privadas. Qualidade do ensino melhor nestas do que naquelas? As opiniões dividem-se; os preços não têm comparação. Ponto.

Ontem, quarta-feira, ele ia a sair da escola, com um amigo, pelas quase três da tarde. De repente, sentiu como que uma ferroada no pescoço, tendo-se sentido um tanto abananado, segundo ele próprio me contou. O amigo viu-lhe sangue e pressionou uma pequena ferida com o seu lenço. Voltaram à escola, ambulância, hospital de São Francisco Xavier. O companheiro declarou que fora um tiro de pistola de pressão de ar e que lhe parecera que fora disparado de uma viatura que passava.

Um susto tramado. Uma radiografia, depois uma TAC, os médicos não queriam acreditar, mas o Rodrigo tinha um chumbo de tal arma alojado no lado esquerdo do pescoço. Decidiram não o operar, pois que a posição do projéctil não aconselhava a intervenção. Estava – e está – muito próximo da jugular. O chumbinho encapsulou e pode ali ficar, como tem a possibilidade do organismo o rejeitar, expelindo-o. Nos dias mais próximos, nada de futebóis e coisas dessas.

Essa animalidade abstrusa parece ser vulgar por ali, como «brincadeira» de Carnaval. De manhã, uma senhora fora atingida numa perna. A polícia da zona, informou a Margarida, que fora de imediato para o hospital a fim de acompanhar o filho, que hoje se deslocariam agentes para junto do estabelecimento de ensino, no sentido de averiguar o que acontecera e, se possível, apanhar o «brincalhão» ou os, e bem assim prevenir novas atitudes desse teor. Que eu não hesito em classificar como criminosas.

O rapaz está felizmente bem e recomenda-se. Naturalmente, um tanto aborrecido com o caso, um pouco, ainda, sob a influência dele, com alguma perturbação psicológica, como é bom de compreender. E a tomar antibióticos. Foi um susto muito grande – mas podia ter sido pior. Bastava que tivesse sido um pouco mais ao lado, um pouco mais acima, numa vista, eu sei lá. E até poderia ter sido mortal.

O Carnaval já anda tão desprestigiado que mais serpentina menos confetti, mais balão de água, menos bisnagas, mais bichinhas de rabear, se ainda as houver, menos máscara, não lhe fazem grande mossa. Confesso que não sou um entusiasta do Entrudo, nunca fui e, agora, com tal selvajaria, muito menos o serei. A sociedade, essa, que todos nós os homens, ao longo dos tempos, ajudámos a construir, talvez a estejamos, sim, a destruir.

Um tiro no Carnaval é como classifico esta enormidade estúpida e perigosa. Mais um.

4 comentários:

Bernardo Moura disse...

Amigo Antunes Ferreira,
como já referi na "Travessa do Ferreira", acho que a falta de valores humanos é cada vez maior e não sei para onde caminhamos. Só sei que não quero caminhar com essa gente.
Onde estão as patrulhas "Escola Segura"?

Um grande abraço

Diabba disse...

Gosto do Carnaval, acho que muitas almas aproveitam para mostrar o seu verdadeiro "eu". Há muitos monstros aí por cima.

Não há "escola segura" quando muito há "portão da escola seguro", porque os senhores ficam ali paradinhos, tipo porteiros.

Por outro lado, não se pode exigir que cada cidadão tenha um polícia ao lado, que o proteja 24h/dia.

O que se pode e deve exigir é que haja mais lições de cidadania e comportamento em sociedade... olha podiam aproveitar as tais "aulas de substituição" em vez de fazerem desenhos aprendiam regras de boa convivência, a mim parece-me uma boa ideia.

beijo d'enxofre

Luis Portugal disse...

Maldita mentalidade portuguesa do quer posso e faço.
Que essa criança não seja alvo da ignorância dos demais.
Ficará bom com certeza, só espero que esqueça rápido pois será um trauma para o jovem.
Com tudo de bom para esse benfiquista aqui de um lagarto do Norte.
Bom fim de semana para todos e que o Carnaval seja motivo de alegria e não de desgraças.
Abraços de,
Luís Portugal

LLM disse...

Quando li esta notícia, a minha primeira reacção foi ligar à minha filha de 14 anos. Também ela está numa escola oficial e por ali a segurança é muito permeável. Esta questão das "brincadeiras" de Carnaval está a tornar-se cada vez mais, uma coisa séria e muito preocupante. Penso que é tão relevante a ausência de valores, que se torne irrelevante a presença da "Escola Segura".

Cumprimentos