sábado, fevereiro 21, 2009

Freakshow

Por Andreia Vilhena

Ora benhe, isto também está no meu blogue, mas vozes do além (não, espera, é da cozinha) dizem-me que eu nunca escrevo aqui e que é suposto os colaboradores colaborarem e mais não sei quê, maneiras que com este post acho que me safo para os próximos seis meses.
(Ou é do além? ... Que horas são isto?!)

Capítulo 1

Fundiu-se-me uma lâmpada












A lâmpada do candeeiro fundiu-se-me.
Desenrosco-a, olho-a, guardo-a. Não vale de nada, mas vou precisar dela quando for comprar uma nova. Nunca me lembro do modelo das lâmpadas.
“Será das E14, menina?”
“Deve ser...”
Mas nunca é.
Enfim, o que importa é que se me fundiu a lâmpada do candeeiro do quarto. E eu não queria ainda ficar sem luz. E agora?
Acendia a luz do tecto? Não me pareceu. Luzes directas incomodam-me, são fortes demais.
Pedia à pessoa do outro lado da cama para acender o outro candeeiro? Não valia a pena. Estas lâmpadas são propositadamente fracas para iluminarem apenas os centímetros mais próximos sem incomodar o resto da cama e do mundo.
Quando se sofre de insónias, como eu, tem-se tudo pensado, porque há tempo para pensar em tudo.
Mas divago.
Dizia eu que se me fundiu a lâmpada do candeeiro e que não tenho lâmpadas extra.
Fui então buscar uma muito pequena vela.
Coloquei o candeeiro no chão e pus a vela no sítio dele.
Fiquei hipnotizada pela chama entre três a vinte e três minutos, e digo três a vinte e três porque coloquei a vela em frente ao relógio de pulso que tinha anteriormente tirado do, obviamente, pulso, e posto ao lado do, na altura, candeeiro, e portanto só conseguia ver o último dos quatro dígitos das horas, mas onde é que eu ia? Ah, ia na vela.
Fiquei então hipnotizada por tempo incerto. Uma muito pequena chama perfeita, recta e isolada no meio da absoluta escuridão é coisa que me hipnotiza sempre, embora nem sempre durante três a vinte e três minutos.
Devia experimentar mais vezes isto da vela.
Bem, mas alongo-me.

Apeteceu-me então escrever, mas num caderno de papel em vez de no Word. Acrescento que não sei da possível existência de cadernos que não sejam de papel e que por isso acrescentei “de papel” à denominação do caderno que queria, não pensem que sou estúpida. No entanto, se existissem, e eu soubesse, cadernos que não de papel, apetecer-me-ia escrever num deles, tenho a certeza, desde que, logicamente, fosse o dito caderno feito de um material possível de escrever.
Mas dizia eu, apeteceu-me escrever num caderno, por isso não me apeteceu ligar o portátil.
Por isso, esta chama não era suficiente.
Encontrei uma muito grande vela na cozinha. Será conveniente referir que me levantei da cama antes disso, não vá o leitor pensar que eu tenho a cama na cozinha, o que seria extremamente idiota e inestético embora exequível, não só porque eu possuo uma cozinha de tamanho considerável mas também porque faço o que me apetece. Adiante; não sei como, mas tinha uma muito grande vela na cozinha.
Em contrapartida, não encontrei mais nenhuma muito pequena vela.
Talvez a muito grande vela seja o resultado de uma fusão bizarra e clandestina das minhas mais de cem muito pequenas velas que tinham sido avistadas pela última vez dentro de uma caixa, da qual, na altura, retirei algumas que espalhei pela casa, porque, tal como referi, eu faço o que me apetece.
Ou talvez eu tenha tanto sono que julgo que não tenho sono nenhum.
Mas divago ainda...
Retornei ao quarto e acendi a muito grande vela ao lado da previamente acesa muito pequena vela no sítio onde antes habitava o meu candeeiro que, recordo, repousa agora no chão, e fiquei hipnotizada mais cinco a quinze minutos.
No entanto, reparo agora, demorei mais a descrever isto do que a fazê-lo. É o que dá ter a mania que sou escritora. Perdão, senhores.
Prossigamos, então, com isto.
A muito grande vela junto com a muito pequena semelhante, descobri, proporciona a mesma intensidade de luz que o meu desabilitado candeeiro.

Passarei pois, doravante, a desprezá-lo.
Desloquei-me novamente do quarto, desta vez para uma divisão que não sei que nome tem porque não é um quarto nem uma sala, mas também não é uma cozinha nem um wc, e procurei um caderno que não estivesse ainda pejado de delírios noctívagos da primeira à última folha.
A tarefa revelou-se difícil
Eu não sou uma “insomníaca” qualquer. Eu sou uma Senhora Insomníaca, e, descobri ao folhear alguns cadernos, especialmente delirante.
O puto do Sexto Sentido é um amador à minha beira. Eu não “vejo” pessoas mortas, eu jogo à sueca com elas. Pelo menos é o que diz uma entrada de dois mil e sete, e se diz eu acredito, até porque fui eu que escrevi e eu não ia mentir a mim própria.
Parece que ganhei três vezes.
Continuemos. Descobri também, ou melhor, relembrei, ainda durante o processo de folheanço, que tenho a particularidade raríssima de misturar delírios E aborrecimento num único e mesmo texto.
Algures em dois mil e oito usei seis páginas de um caderno A4 a descrever o acto de abrir um envelope.
Um ano antes, quatro páginas e meia foram gastas a reflectir sobre um corta-unhas.
Mas onde é que eu ia?
Ah, fundiu-se-me uma lâmpada, pois.
Ok, então fundiu-se-me a lâmpada e eu acendi uma vela e depois outra e depois apeteceu-me escrever. Estou então à procura de um caderno com espaço, é isso.
A caneta já está comigo, esqueci-me de referir. Peço imensa desculpa. Auto-flagear-me-ei quando for oportuno, prometo.
Bem, mas estou então à procura do caneto, perdão, do caderno, e eis que aparece um que está quase meio vazio. Ou pouco mais de meio cheio, se quiserem ser picuinhas, mas não querem, que se formos por aí eu também sei jogar esse jogo e envolver-vos-ei em divagações até à morte, perdão, ao tédio.
Que pode levar à morte. Nunca ouviram falar em morrer de tédio? Pois.

Mas dizia eu, encontrei o caderno, e levei-o comigo para o quarto, onde, como já referi, estavam a muito grande e a muito pequena velas acesas e, como referi que me tinha esquecido de referir, a caneta.
Que era uma Bic, azul. Quer dizer, ainda é, porque não me lembro de ter mudado de caneta desde que comecei a escrever; mas mesmo que por distracção tenha mudado, terá sido para uma caneta exactamente igual à anterior, pelo que não vos maçarei mais com este assunto.
Abro então o caderno quase meio vazio e preparo-me para escrever, quando reparo que, entre as folhas do dito caderno, estão folhas estranhas ao mesmo, e digo estranhas porque o papel era definitivamente diferente, escondidas.
Agarro portanto no caderno pelas argolas e sacudo-o em cima do edredão. Caem várias folhas dobradas em quatro, e eu soube que estavam dobradas em quatro antes de as desdobrar porque eu sei a espessura que tem uma folha dobrada em quatro.
Coloco momentaneamente o caderno de lado e pego numa das folhas ao acaso.
Desdobrei-a, li-a, e foi então que comecei a gritar.



11 comentários:

Armindo Guimarães disse...

Capítulo II

Nessas folhas, que eram minhas e havia datado de 20 de Fevereiro de 2008, podia ler-se numa escrita titubeante, seguramente originada pela cómoda mas imprecisa posição em que me encontrava, o seguinte texto:

Freakshow
Por Andreia Vilhena

Ora benhe, isto também está no meu blogue, mas vozes do além (não, espera, é da cozinha) dizem-me que eu nunca escrevo aqui e que é suposto os colaboradores colaborarem e mais não sei quê, maneiras que com este post acho que me safo para os próximos seis meses.

(Ou é do além? ... Que horas são isto?!)

Capítulo 1

Fundiu-se-me uma lâmpada.
A lâmpada do candeeiro fundiu-se-me.
Desenrosco-a, olho-a, guardo-a. Não vale de nada, mas vou precisar dela quando for comprar uma nova. Nunca me lembro do modelo das lâmpadas.
“Será das E14, menina?”
“Deve ser...”
Mas nunca é. (…)

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ATAVISMO: o passado pode voltar!

Eheheheheh

Abraços e bom fim de semana!

tronxa disse...

Vou tentar não perder as cenas dos próximos capítulos, Andreia!!

Mas olha que as insónias até que dão jeito, pelo menos a mim, que não gosto de dormir!!

Bjnhsss de bom fim de semana!

tronxa disse...

Só mais uma coisa...

Vê lá se a voz do além não está a tentar afogar as torradas do pequeno almoço, já ouvi dizer que tem jeito para afogamentos!!

:o)

Bernardo Moura disse...

O texto é mesmo muito fixe!

eheheheh

Continua.

Beijos grandes

P.S.: Tronxa,eu dormia o sono dos justos.

cassamia disse...

ler-te é uma delicia, seja em que espaço for e morrer de tédio é uma impossibilidade.
gostei particularmente de não nos teres dito porque gritaste.

Horushu disse...

Olá, Andreia!
Aos 19 anos, publicaste um livro de contos extraordinário, que se tornou um best-seller; ver para crêr!!
Agora, temos uma jovensíssima romancista prestes a estrear-se (21 anos! Ver para crêr!) e, neste texto, observamos-te a exercitar os músculos que movem as asas.
Quanto ao texto em si, adorei o assunto: basicamente nenhum. E ainda assim, quanto há que dizer de um assunto "basicamente nenhum"! Tudo se inter-relaciona neste Universo e se pegares na Realidade (os sonhos são Realidade) seja por que ponta for, provarás que não há tema mais importante do que o primeiro que agarrarmos com os tentáculos do cérebro. As botas de van Gogh eclipsaram a Realidade! Os girassóis de Van Gogh, mais reais do que os reais!
"Um génio nunca erra: experimenta." (James Joyce)

Horushu disse...

Quanto aos resultados, sem stress, Andreia: "Quem quer jorrar relâmpagos, deverá tolerar ser, por muito tempo, nuvem." (Nietzsche)
Se tivermos em conta que Nietzsche deixou de escrever aos 44 anos, perceberemos melhor o que para ele era muito tempo: o tempo de Nietzsche era medido pela sua impaciência!
Tudo de bom, ó Joanne d'Arc da Literatura Portuguesa!
Jorge

Horushu disse...

Bom, Joanne d'Arc foi um jovem brilhante líder; só isso. É de mau gosto dizer "X é o Y de z"! A Andreia Soares é a Andreia Soares da Literatura Portuguesa; assim, sim.
Andreia, os leitores têm que ser chibateados de vez em quando; senão, revoltam-se, e ainda começam a criticar o Escritor ou a Escritora! Não é por acaso que tu és Escritora e eles Leitores! Chibata!
Tudo de bom,
Jorge

Horushu disse...

Mas é que eu nem gracejar posso! Sou logo castigado! Joan d'Arc foi "uma" e não "um", uma, uma, sim todos sabemos que era uma jovem; que chatice!
Quanto a chibatear os leitores... eu estava a brincar, eu estava quase a brincar. Os deuses são severos com os engraçadinhos! Pronto, retiro a chibata... e no seu lugar coloco um... hmmm... um chibo !
Abraço,
Horus

Zé do Cão disse...

Pois é meu amigo.
A minha "Dona" optou por comprar um candeeiro a petróleo, daqueles antigos, muito antigos, comprado no Brás & Brás.
Já a avisei, que fez mal, o petróleo agora é comprado aos barris, é caro e vem do Iraque (cheira a guerra)

Um abraço

loura decidida disse...

Tu postaste numa hora impar?? estou chocada!!!