quinta-feira, agosto 16, 2007

Texto ..


"… E passado mais um dia morno entre os já muitos mornos que tenho atravessado, pelo fim da tarde saio para comprar cigarros.O sol põe-se já por trás da torre de Belém, e eu caminho ao longo da Marginal, rumo à estação da BP de Pedrouços.Que tempo sereno! Quanta calma no ar, neste lânguido fim de tarde de uma raríssima suavidade. Ninguém à vista. Apenas alguns carros passam por mim, a caminho do Estoril e de Cascais.Quanta nostalgia ao recordar as vezes que contemplei o pôr-do-sol neste recanto único da foz do Tejo, onde a beleza me fez e faz esquecer tanta coisa… Se toda esta beleza fosse o que me bastasse para ser inteiro, seria decerto muito feliz. Oh se seria!… Mas…De súbito, como já é habitual em mim há décadas, uma pequena frase musical salta-me ao caminho, acompanhada por três palavras furtivas – solamente una vez…Olho para o sol que vai caindo na linha do horizonte e tolda-se-me a vista. Duas incompreensíveis lágrimas pesadas alagam-me os olhos, e quase perco o equilíbrio por não conseguir ver onde pôr os pés.Terá sido uma só vez? Ou poucas? Ou nenhuma? Que sei eu que me deixe afirmá-lo como mais uma verdade que me acompanha nesta caminhada que é a vida? Que vez? Que verdade? Que vida?Ponho-me então a contar os carros que vão passando, a ver se me convenço de que há um número para lá da minha dúvida. Um plural.E se acaso não sei de todo o que é amar?… E mais duas pesadas lágrimas caem. Quanta ausência de mim próprio… Olho para o horizonte de mar e sinto-me à deriva. Que vazio tão cheio de nada!… Por onde tenho eu andado?A estação da BP chega entretanto ao pé de mim. Mesmo agora, eu estava ainda ali… Agora, estou aqui sem saber como chegou ela a mim. Solamente una vez...Não tenho de encarar quem me atende. Ainda bem. Peço o que quero, pago e saio. Ninguém sabe da tempestade que está a abater-se sobre mim. A luz escoa-se, e a melancolia de mais um dia fugaz que passou sem história faz-me companhia no regresso a casa. Mais uma vez...Ao chegar, ligo o computador e vou à procura de «Solamente Una Vez». Leio o poema, ouço o bolero, olho nos olhos do intérprete e… Pois, mais duas lágrimas pesadas caem.Dia sem história?…Escrever este texto soube-me bem, mas custou-me muito mais do que estaria disposto a pagar por ele…A prosa confessional é dura e cara; custa, literalmente, os olhos da cara…"
Este texto é da autoria de "RIC".
É um texto fantástico.
Acho que os sentimentos que ele trasmite neste texto são muito fortes e que todos nós já em alguma altura nos encontramos com eles.
Penso que todos já fomos a pé a uma bomba de gasolina comprar algo e a pensar na vida de uma certa forma nostálgica.
Enfim, coloquei aqui o texto porque gosto muito dele e porque achei que merecia esta minha "homenagem".
Um grande abraço para o "RIC"!

7 comentários:

Anónimo disse...

Um texto com uma nostalguia do caraças.
O solamente una vez e una vez más.

Mas ainda existe a BP em Pedrouços ??
touaqui42

Bia disse...

Muito bom o texto!!!

RIC disse...

Obrigado, Bernardo, pela «publicidade»... Mas «num habia nexexidade»... Rsrs!
Quanto a Pedrouços e à BP (que já foi Mobil), trata-se de Lisboa. Parece que no Porto também há um topónimo «Pedrouços» (desculpem a ignorância...)
Abraço! :-)

Bernardo Moura disse...

Caro Ric,
no Porto também existe Pedrouços sim!
Ab

gasolina disse...

Belissimo texto!

Parabéns ao Autor Ric e ao Bernardo pela escolha.

Um beijinho.

RIC disse...

... «Gasolina» diz-me muito pouco, sou sincero. Mas «Flor da Palavra», ah! Isso é outra louça! Rsrs!
E, afinal, somos «vizinhos», apenas com o Tejo pelo meio...
Obrigado a ambos!
Um beijinho! :-)

gasolina disse...

OFF Topic:

Thank you Ric!