domingo, setembro 06, 2009


A Arte da Comida

A Tasquinha do Oliveira

Antunes Ferreira
Voltamos de Badajoz, tranquilamente, a A6 tem muito pouco movimento, e, alem do mais, estamos de passeio, sem ninguém a correr atrás de nós, sem horas de chegada, sem chatices nenhumas. Como dizem os Brasileiros (e nós vamos repetindo) tudo numa boa. E porque não almoçar em Évora? Pareceu-nos uma boa ideia, são duas da tarde, mais coisa, menos coisa, em Espanha é uma hora mais tarde, hemos desayunado pelas onze deles, dez de cá, olha que novidade, para escrever e dizer isto mais valia estar calado…

Estaciono na Cândido dos Reis, vê-se que estamos nos princípios de Setembro, há lugares suficientes, os parquímetros até funcionam, mas, do mal o menos. E vá de subir à esquerda de quem vai em direcção à praça do Sem Pavor, Geraldo de seu nome, que conquistou a cidade aos mouros em 1165. O Fialho está fechado para férias.

Voltamos ao ponto de partida, damos uns passos escassos em sentido contrário e eis que nos deparamos com a Tasquinha d’Oliveira, da qual já ouvira eu falar. Boa pinta. Entramos. O senhor que atende às mesas – são apenas doze - diz que sim senhor, com certeza, mesmo àquela hora, sai almoço. Muito obrigado. Sentamo-nos.

E começa a nossa aventura gastronómica. Parece-me conhecer o patrão. Era empregado dos Fialhos, há 14 anos decidiu abrir o seu bistrô, a Dona Carolina, esposa dele, na cozinha e - em frente. Bendita a hora da decisão. Antes de tudo, um branco de nome Comenda Grande que merece efectivamente uma grande comenda. Um Eden liquefeito.

Pão da casa, à maneira, natural e torrado em fatiazinhas finíssimas, rendadas. Uns torresmos rissol, uns pimentos assados, às tiras e sazonados a preceito, umas favas com hortelã e chouriço e duas perdizes de escabeche. Isto de entradas. Mas, surge o melhor: pataniscas da Dona Carolina. Um espanto. Nunca comi tão boas. A Raquel vota, temos unanimidade. Finas, quase transparentes, bacalhau q.b. Celestiais, as pataniscas, divinais. Divinas.

E a Comenda Grande cada vez mais pequena. Fresquíssimo o branco, para atalhar o calor, o ar condicionado está no ponto, o néctar também está. O senhor Manuel vem com a travessa da opulência: pezinhos de coentrada. Nova votação em uníssono: os melhores entre os melhores. Ou seja, os melhores dos muitos que temos comido, ponto.

A auto-estrada desenha-se num horizonte longínquo, a GNR não manda soprar no balão, o Senhor Manuel afirma que sabem os agentes que os cidadãos vêm da Tasquinha, tal o ar de satisfação conventual e o sorriso da bem aventurança que ostentam. Comenda não tem meias, mas há uma aberta que o senhor Oliveira transporta com cuidado maternal (para o caso é mais paternal).

Café – não tomo. Motivos religiosos? Jura? Alergia? Um dia explico. Mas um uísque Black Bushmills é tiro e queda. Da Irlanda do Norte, para mim que sou apreciador, apenas o melhor do Mundo, sem fundamentalismos alcoólicos. E a Raquel, cafezeira, vai numa aguardente velha, CRF Reserva Extra. Que pomadas, Amigos, que pomadas! A acompanhar uma encharcada para o elemento feminino e um queijinho de ovelha amanteigado, da região, adivinhem para quem. Opíparo.

Vem a conta. Almoço assim, servem-no os anjos, depois de confeccionado na terceira nuvem a contar da esquerda. Não tem preço, mas este tem: 80,20 euros. Deixo 84,00, bem merecidos, merecidíssimos. Despedidas carinhosas com a participação da pantagruélica cozinheira/cara-metade. E beijinhos, justificadíssimos. O Templo de Diana, nem vê-lo. Muito menos a Capela dos Ossos. Seria uma obscenidade.



Um destes dias, palavra de honra, assalto um banco. E se lá houver dinheiro (nestes conturbados tempos a condicional é mais do que justificada), volto a Évora e à Tasquinha do Manuel Oliveira. Isto é, assalto eu e volta o casal. Em tempo: a auto-estrada vem mesmo até Lisboa e a GNR não me parou. Nem na Ponte Vasco da Gama, que a outra é muito alta e tenho vertigens. Os gênêrês sabiam de onde vinha, é o caso.

Aos visitantes:
Este textículo não foi encomendado; se o tivesse sido, não o publicaria. E creio que não era necessária esta nota. Mas, pelo sim, pelo não, ela aqui fica. O «banquete», paguei-o. E do meu bolso. Mas, foi tal a plenitude que de nós se apossou - que tinha de o escrever. Com a gratidão ao Senhor Oliveira e à Dona Carolina. Tratamentos destes nem no Olimpo. Tenho dito.

(Também publicado na Minha Travessa do Ferreira)

1 comentário:

BERNARDO MOURA disse...

Que relato maravilhoso!

Quando passar em Évora já sei onde me deliciar!

Grande abraço