sábado, fevereiro 28, 2009
sexta-feira, fevereiro 27, 2009
quinta-feira, fevereiro 26, 2009
Quanto indicava a balança?
DIGO

Sobre o chá não mais direi. Cansei-me.
Sobre o leite pouco mais direi. Cansei-me.
Sobre o sumo nada mais direi. Cansei-me.
Sobre a água nunca mais direi. Cansei-me.
Sobre o pão jamais direi. Cansei-me.
Sobre a bolacha nem direi. Cansei-me.
Sobre o bolo nada direi. Cansei-me.
Sobre o arroz mais não direi. Cansei-me.
Sobre a politica ainda direi. Não me cansei.
Sobre a injustiça muito direi. Não me cansei.
Sobre a pobreza direi. Não me cansei.
Sobre a desumanidade tanto direi. Não me cansei.
Sobre a crueldade com as crianças muitíssimo direi. Não me cansei.
Sobre maus tratos a animais mais direi. Não me cansei.
Sobre a violência deveras direi. Não me cansei.
Sobre este país muito, muito direi. Não me cansei.
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
sábado, fevereiro 21, 2009
Freakshow
Ora benhe, isto também está no meu blogue, mas vozes do além (não, espera, é da cozinha) dizem-me que eu nunca escrevo aqui e que é suposto os colaboradores colaborarem e mais não sei quê, maneiras que com este post acho que me safo para os próximos seis meses.
(Ou é do além? ... Que horas são isto?!)
Capítulo 1
Fundiu-se-me uma lâmpada
A lâmpada do candeeiro fundiu-se-me.
Desenrosco-a, olho-a, guardo-a. Não vale de nada, mas vou precisar dela quando for comprar uma nova. Nunca me lembro do modelo das lâmpadas.
“Será das E14, menina?”
“Deve ser...”
Mas nunca é.
Enfim, o que importa é que se me fundiu a lâmpada do candeeiro do quarto. E eu não queria ainda ficar sem luz. E agora?
Acendia a luz do tecto? Não me pareceu. Luzes directas incomodam-me, são fortes demais.
Pedia à pessoa do outro lado da cama para acender o outro candeeiro? Não valia a pena. Estas lâmpadas são propositadamente fracas para iluminarem apenas os centímetros mais próximos sem incomodar o resto da cama e do mundo.
Quando se sofre de insónias, como eu, tem-se tudo pensado, porque há tempo para pensar em tudo.
Mas divago.
Dizia eu que se me fundiu a lâmpada do candeeiro e que não tenho lâmpadas extra.
Fui então buscar uma muito pequena vela.
Coloquei o candeeiro no chão e pus a vela no sítio dele.
Fiquei hipnotizada pela chama entre três a vinte e três minutos, e digo três a vinte e três porque coloquei a vela em frente ao relógio de pulso que tinha anteriormente tirado do, obviamente, pulso, e posto ao lado do, na altura, candeeiro, e portanto só conseguia ver o último dos quatro dígitos das horas, mas onde é que eu ia? Ah, ia na vela.
Fiquei então hipnotizada por tempo incerto. Uma muito pequena chama perfeita, recta e isolada no meio da absoluta escuridão é coisa que me hipnotiza sempre, embora nem sempre durante três a vinte e três minutos.
Devia experimentar mais vezes isto da vela.
Bem, mas alongo-me.
Apeteceu-me então escrever, mas num caderno de papel em vez de no Word. Acrescento que não sei da possível existência de cadernos que não sejam de papel e que por isso acrescentei “de papel” à denominação do caderno que queria, não pensem que sou estúpida. No entanto, se existissem, e eu soubesse, cadernos que não de papel, apetecer-me-ia escrever num deles, tenho a certeza, desde que, logicamente, fosse o dito caderno feito de um material possível de escrever.
Mas dizia eu, apeteceu-me escrever num caderno, por isso não me apeteceu ligar o portátil.
Por isso, esta chama não era suficiente.
Encontrei uma muito grande vela na cozinha. Será conveniente referir que me levantei da cama antes disso, não vá o leitor pensar que eu tenho a cama na cozinha, o que seria extremamente idiota e inestético embora exequível, não só porque eu possuo uma cozinha de tamanho considerável mas também porque faço o que me apetece. Adiante; não sei como, mas tinha uma muito grande vela na cozinha.
Em contrapartida, não encontrei mais nenhuma muito pequena vela.
Talvez a muito grande vela seja o resultado de uma fusão bizarra e clandestina das minhas mais de cem muito pequenas velas que tinham sido avistadas pela última vez dentro de uma caixa, da qual, na altura, retirei algumas que espalhei pela casa, porque, tal como referi, eu faço o que me apetece.
Ou talvez eu tenha tanto sono que julgo que não tenho sono nenhum.
Mas divago ainda...
Retornei ao quarto e acendi a muito grande vela ao lado da previamente acesa muito pequena vela no sítio onde antes habitava o meu candeeiro que, recordo, repousa agora no chão, e fiquei hipnotizada mais cinco a quinze minutos.
No entanto, reparo agora, demorei mais a descrever isto do que a fazê-lo. É o que dá ter a mania que sou escritora. Perdão, senhores.
Prossigamos, então, com isto.
A muito grande vela junto com a muito pequena semelhante, descobri, proporciona a mesma intensidade de luz que o meu desabilitado candeeiro.
Passarei pois, doravante, a desprezá-lo.
Desloquei-me novamente do quarto, desta vez para uma divisão que não sei que nome tem porque não é um quarto nem uma sala, mas também não é uma cozinha nem um wc, e procurei um caderno que não estivesse ainda pejado de delírios noctívagos da primeira à última folha.
A tarefa revelou-se difícil
Eu não sou uma “insomníaca” qualquer. Eu sou uma Senhora Insomníaca, e, descobri ao folhear alguns cadernos, especialmente delirante.
O puto do Sexto Sentido é um amador à minha beira. Eu não “vejo” pessoas mortas, eu jogo à sueca com elas. Pelo menos é o que diz uma entrada de dois mil e sete, e se diz eu acredito, até porque fui eu que escrevi e eu não ia mentir a mim própria.
Parece que ganhei três vezes.
Continuemos. Descobri também, ou melhor, relembrei, ainda durante o processo de folheanço, que tenho a particularidade raríssima de misturar delírios E aborrecimento num único e mesmo texto.
Algures em dois mil e oito usei seis páginas de um caderno A4 a descrever o acto de abrir um envelope.
Um ano antes, quatro páginas e meia foram gastas a reflectir sobre um corta-unhas.
Mas onde é que eu ia?
Ah, fundiu-se-me uma lâmpada, pois.
Ok, então fundiu-se-me a lâmpada e eu acendi uma vela e depois outra e depois apeteceu-me escrever. Estou então à procura de um caderno com espaço, é isso.
A caneta já está comigo, esqueci-me de referir. Peço imensa desculpa. Auto-flagear-me-ei quando for oportuno, prometo.
Bem, mas estou então à procura do caneto, perdão, do caderno, e eis que aparece um que está quase meio vazio. Ou pouco mais de meio cheio, se quiserem ser picuinhas, mas não querem, que se formos por aí eu também sei jogar esse jogo e envolver-vos-ei em divagações até à morte, perdão, ao tédio.
Que pode levar à morte. Nunca ouviram falar em morrer de tédio? Pois.
Mas dizia eu, encontrei o caderno, e levei-o comigo para o quarto, onde, como já referi, estavam a muito grande e a muito pequena velas acesas e, como referi que me tinha esquecido de referir, a caneta.
Que era uma Bic, azul. Quer dizer, ainda é, porque não me lembro de ter mudado de caneta desde que comecei a escrever; mas mesmo que por distracção tenha mudado, terá sido para uma caneta exactamente igual à anterior, pelo que não vos maçarei mais com este assunto.
Abro então o caderno quase meio vazio e preparo-me para escrever, quando reparo que, entre as folhas do dito caderno, estão folhas estranhas ao mesmo, e digo estranhas porque o papel era definitivamente diferente, escondidas.
Agarro portanto no caderno pelas argolas e sacudo-o em cima do edredão. Caem várias folhas dobradas em quatro, e eu soube que estavam dobradas em quatro antes de as desdobrar porque eu sei a espessura que tem uma folha dobrada em quatro.
Coloco momentaneamente o caderno de lado e pego numa das folhas ao acaso.
Desdobrei-a, li-a, e foi então que comecei a gritar.
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
quinta-feira, fevereiro 19, 2009

SALADA DO DIA
Um tiro no Carnaval
Antunes Ferreira
O meu neto número dois é o Rodrigo. A caminho dos 13 anos, é um puto excelente, bom aluno, bom em tudo que se mete, bom feitio, eu sei lá que mais. Chamam-me avô babado – e eu ralado: sou. Ao malandro só aponto um defeito – é do Benfica. Onde até já jogou, nas escolas para a miudagem, para o que lhe havia de dar, eu bem o tenho avisado contra os maus passos e ele responde-me que muito piores são os maus… passes. Nada feito. No melhor pano cai a nódoa e não se pode ser perfeito.
Frequenta com muito bons resultados o sétimo ano da Escola Secundária de Miraflores. Com amigos e amigas, naturalmente. O meu primogénito, o Miguel, economista, e a minha nora/filha Margarida, secretária, optaram – e a meu ver muito bem – pelo ensino oficial. As escolas públicas, no entender deles, preparam a malta para a vida, a nível muito diferente (e superior) às privadas. Qualidade do ensino melhor nestas do que naquelas? As opiniões dividem-se; os preços não têm comparação. Ponto.
Ontem, quarta-feira, ele ia a sair da escola, com um amigo, pelas quase três da tarde. De repente, sentiu como que uma ferroada no pescoço, tendo-se sentido um tanto abananado, segundo ele próprio me contou. O amigo viu-lhe sangue e pressionou uma pequena ferida com o seu lenço. Voltaram à escola, ambulância, hospital de São Francisco Xavier. O companheiro declarou que fora um tiro de pistola de pressão de ar e que lhe parecera que fora disparado de uma viatura que passava.
Um susto tramado. Uma radiografia, depois uma TAC, os médicos não queriam acreditar, mas o Rodrigo tinha um chumbo de tal arma alojado no lado esquerdo do pescoço. Decidiram não o operar, pois que a posição do projéctil não aconselhava a intervenção. Estava – e está – muito próximo da jugular. O chumbinho encapsulou e pode ali ficar, como tem a possibilidade do organismo o rejeitar, expelindo-o. Nos dias mais próximos, nada de futebóis e coisas dessas.
Essa animalidade abstrusa parece ser vulgar por ali, como «brincadeira» de Carnaval. De manhã, uma senhora fora atingida numa perna. A polícia da zona, informou a Margarida, que fora de imediato para o hospital a fim de acompanhar o filho, que hoje se deslocariam agentes para junto do estabelecimento de ensino, no sentido de averiguar o que acontecera e, se possível, apanhar o «brincalhão» ou os, e bem assim prevenir novas atitudes desse teor. Que eu não hesito em classificar como criminosas.
O rapaz está felizmente bem e recomenda-se. Naturalmente, um tanto aborrecido com o caso, um pouco, ainda, sob a influência dele, com alguma perturbação psicológica, como é bom de compreender. E a tomar antibióticos. Foi um susto muito grande – mas podia ter sido pior. Bastava que tivesse sido um pouco mais ao lado, um pouco mais acima, numa vista, eu sei lá. E até poderia ter sido mortal.
O Carnaval já anda tão desprestigiado que mais serpentina menos confetti, mais balão de água, menos bisnagas, mais bichinhas de rabear, se ainda as houver, menos máscara, não lhe fazem grande mossa. Confesso que não sou um entusiasta do Entrudo, nunca fui e, agora, com tal selvajaria, muito menos o serei. A sociedade, essa, que todos nós os homens, ao longo dos tempos, ajudámos a construir, talvez a estejamos, sim, a destruir.
Um tiro no Carnaval é como classifico esta enormidade estúpida e perigosa. Mais um.
quarta-feira, fevereiro 18, 2009
Passatempos com prémio
«Como Falhar Completamente a sua Vida em 11 Lições» - até às 12h de 19 Fev 09.«Eis o que me irrita em P. P. Coelho» - até às 20h de 19 Fev 09.
«O Senhor Secretário» - até às 20h de 20 Fev 09.
«O Regimento dos Espectros» - até às 20h de 21 Fev 09.
«Para ler Fernando Namora» - até às 20h de 22 Fev 09.
PORTUGAL ESTÁ A CRESCER (!?)
De momento evito ver os telejornais.
Irritam-me.
É só mentiras atrás de mentiras.
Ainda ontem vi o nosso caríssimo P.M. afirmar que estamos a caminhar bem (!?), que o país está em crescimento (!?), que as últimas informações à cerca do desemprego são positivas (!?), que.. eu sei lá.. .
Quem é que “come” semelhante?
Como é possível que se tenha a audácia de afirmar tais mentiras?
Por quem nos toma ele? Por burros? Patetas? Provavelmente deve achar isso. Mas é apenas na cabeça dele e dos seus seguidores.
Como é que se pode ter confiança numa pessoa assim?
Desde que tomou posse como P.M. que não fez quase nada do que prometeu fazer. Não prometesse, dissesse antes: “ Vou tentar! “.
Enfim..
Nota-se uma enorme alienação da realidade do país que governa e é assustador.
Mais assustador é o facto de se saber que irá ter um segundo mandato. Ao menos que não seja uma maioria absoluta (igual ou parecido com regime ditatorial; posso, quero e mando).
Muitos justificam as suas acções como necessárias (!?), pouco populares, mas que são para o bem (!?) do povo português.
Não me lembro de Portugal ter um P.M. que estivesse envolvido em tantas polémicas, que ao fim e ao cabo não foram justificadas.
Agora surge-me esta questão: “ Em quem votar? “.
Dar um voto para um segundo mandato a este governo é que não.
É preciso “sangue novo”. Deixem-no aparecer.
Sabem a sensação que dá? É que Portugal está a morrer.
POR VEZES IMAGINO

Imagino um país.
Um país limpo,
A transbordar de paz.
Um país onde o respeito é mutuo,
Onde todos são aceites.
Um país sem tristeza,
Cheio de alegria e solidariedade.
Imagino um país.
Um país sem corruptos,
Sem jogos desleais.
Um país onde o jogo comercial seja limpo,
Em que os cidadãos não se esmagam.
Um país sem hipócritas,
Sem aldrabões e saltimbancos.
Imagino um país.
Um país onde eu,
tu,eles e nós podemos viver
Tranquilos e em paz.
Um país de pessoas com ideais,
Com força para defrontar os demais.
Imagino um país.
Um país sem traidores.
Sem gente que rouba,
Sem pudores.
Um país onde os homens e as mulheres,
Vivem com quem amam,
Sem terem de ver a sua sexualidade discutida em praça pública.
Imagino um país.
Um país onde as crianças brincam livres,
Sem perigos anormais.
Um país,
onde a liberdade de expressão é respeitada.
Onde a informação não é manipulada.
Um país onde os criminosos são punidos justamente.
Onde as pessoas não sintam medo de andar em frente.
Imagino um país.
Um país que roça o perfeito.
Onde há respeito pelo imperfeito,
Como eu,
Como tu e
Como nós.
domingo, fevereiro 15, 2009
ESCLARECIMENTO
Não gosto de abordar assuntos chatos, mas aqui vai.
Eu participo em quatro blogues:
- Cuaoléu
Nestes blogues eu escrevo sobre variados temas, coloco vídeos e imagens que gosto.
Em nenhum dos meus “post`s” tenho o intuito de ferir susceptibilidades. Apenas escrevo o que me apetece, de certa forma restringido ao facto de não magoar ninguém.
Os blogues são espaços onde as pessoas têm liberdade. Têm a liberdade de aceitar o que lhes é dirigido nos comentários, têm a liberdade de escrever da forma que lhes apetece, de colocar vídeos e imagens que querem. Trata-se de um espaço pessoal.
Existem milhares e milhares de blogues. Cada um deles é respeitado por quem os visita, por norma.
Quem anda na blogosfera, sabe que tem que respeitar os temas abordados pelos seus “donos” quer goste ou não. Quando não gostam, simplesmente não voltam a visitar esse blogue. O mesmo se passa nos blogues que eu participo. Ou seja, eu não vou mudar nada nos blogues que participo porque algumas pessoas não gostam.
Peço que não sigam o meu blogue se não gostam do que é aqui publicado.
Não quero ofender ninguém, como não quero que ninguém me ofenda.
Vive e deixa viver!
Obrigado!
Hoje, 15 de Fevereiro, aniversário de Galileu
A PROPÓSITO do aniversário de Galileu, está a decorrer, [AQUI], um passatempo em que um dos prémios será um exemplar deste clássico da divulgação científica. Se o vencedor for leitor do Cuaoléu, já sabe que tem direito a um prémio adicional."..it´s always the same..always,always.."

ANTES DA POSSE
O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que
não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais.
para alcançar os nossos ideais
Mostraremos que é uma grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo da nossa acção.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
as nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos os nossos propósitos mesmo que
os recursos económicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
Compreendam que
Somos a nova política.
DEPOIS DA POSSE
Basta ler o mesmo texto acima, DE BAIXO PARA CIMA
(recebido via e-mail)
sábado, fevereiro 14, 2009

SALADA DO DIA
O herói das avenidas
Antunes Ferreira
Crispim da Conceição, quando gaiato, sonhava ser o que quase todos os putos queriam, aviador. Aviador de balcão, gozava o Trindade, filho de pai ex-rico, que já andara no Valsassina, mas se encontrara depois na Escola Primária 127, ali ao Arco do Carvalhão. O merceeiro seu progenitor, Joaquim da Conceição, Jaquim para os amigos e para os mais chegados, naturalmente a sua patroa Lurdes o tratava assim, dera com os burrinhos na água quando o Guedes lhe trespassara a leitaria. E o moço que ansiava pela Força Aérea, ficara-se pela primária, em terra, não descolara.
Bom negócio, homem, bom negócio, olha lá só com os rabuçados da bola fazes uns larguíssimos carcanhois. Dois, um tostão. A caixa cheia, as cadernetas, a cola para colar os papeizinhos, as trocas e, finalmente, o número da bola, o único, que completava um só álbum, uma página para cada equipa 11 mais oito suplentes, o treinador, vinte quadradinhos que aliás eram rectangulozinhos onde se pegavam a cola de farinha os ases. A cores. Dizia o Guedes. Depois, fora o que se vira.
A vida põe e um qualquer deus dispõe. Hoje, Crispim é motorista da Carris. Dos articulados, os primeiros tinham sido os Ikarus, húngaros, sabe-se lá porquê. Do alto da mecânica criatura, agarrado ao volante, sentira-se, a princípio, como se tivesse alcançado o céu – voando. Não tirara o brevet, mas tirara a carta de condução, profissionais. Legal, em escola de condução. O Sarzedas, malandro confesso, ironizava sempre: tirar a carta de condução, a quem?
Mas as perigosíssimas nuvens tinham-se adensado, tornado mais carregadas. De cirros brancos tinham passado a cúmulos negros, envolventes, asfixiantes, densos. Do fumo dos escapes, quem sabe? Ele estava certo, no entanto, que elas se lhe tinham alojado na alma. Isto é, no sentir quotidiano porque a alma já dera o que tinha a dar.
O tráfego na cidade é uma babel permanentemente infernizada, mas que não vem abaixo, não rui, não se desmorona. E os condutores que são parte essencial desse malfadado trânsito (os que circulam a pé também, mas sem estatuto) uns camelos, criminosos, pelo menos em intenção. Homicidas involuntários? Nada disso. Falhados, falhadíssimos, mas bastas vezes acertando nos infelizes que se davam ao cuidado de atravessar nas passadeiras.
Os tugas consideram-se os melhores do Mundo e arredores na circulação auto, onde quer que seja, de avenidas a autoestradas, de becos a travessas, passando pelas pontes e pelos campos dos todo-terrenos. Autoridades circulantes, especialistas em velocidades, dominadores dos aceleradores, muito em especial imperadores nas rotundas.
Sinais de trânsito – para quê? Só atrapalham, estacionamento proibido, proibido virar à direita, à esquerda, quiçá ao centro. Triângulos de advertência, desnecessários. Limitadores de velocidades, lá vem o proibido. E que dizer dos sentidos proibidos? Só umas bestas se lembrariam de colocar tal sinalefa vermelha. E, como toda a gente sabe, o fruto proibido é o mais apetecido. Não ultrapassar no traço branco, ora é aqui mesmo que avanço, o gajo da frente é uma lesma, para caracol só lhe faltam os pauzinhos ao sol.
A cara-metade afirma, convicta que ele é o verdadeiro herói das avenidas, o Batman ao pé dele é somente um ajudante de auxiliar de praticante, Mas, Crispim confessa-se um cornudo das rodovias citadinas. Os outros, todos os outros, passam a vida a tentar enganá-lo nas minudências da embraiagem, nas subtilezas dos piscas, na arbitrariedade dos máximos, dos médios e, até, dos mínimos, para não falar nos farolins trazeiros/vermelhos, nem pensar nas luzes de estacionamento. Dos travões – nem pó.

Todavia, o homem que queria ser piloto de avião e hoje pilota machimbombos não pode desabafar com a Lurdecas. Ela está no campo oposto, na trincheira inimiga, faz parte dos deserdados da sorte mecânica, da sarjeta das viaturas, vulgo peões. Ela é mais peoa, mas um dia, sabendo como ele se autoclassifica, ainda a apanha na cama com outro… condutor.
(Também publicado no meu http://amimhatravessadoferreira.blogspot.com e no http://anonimasalina.blogspot.com, onde colaboro, assim como neste)
sexta-feira, fevereiro 13, 2009
Hoje é sexta-feira-13!!
UM EXEMPLAR deste livro será sorteado, hoje, [aqui] - a partir das 13h13m. Se o vencedor for leitor do Cuaoléu, receberá, como de costume, um prémio adicional.




